Vem que o filho do pastor, um miúdo trigueiro como já pouco se vê, estava a brincar com uma fisga. Abeirei-me, curioso. Amigável, fez questão de me passar o utensilio à mão, insistindo que experimentasse acertar no alvo improvisado, pendurado no choupo negro. Pois o fiz, com escasso sucesso. Avançou, explicando, com aquela fisga poderia caçar passarinhos, mas não o faria.
- Isto pode ser um instrumento do mal, é preciso cuidado ao usá-lo.
A sentença da criança, e a rutilância com que a pronunciou, apanharam-me desprevenido.
- É verdade. Concordei.
- Gostava de ter uma?
Antes de me dar a possibilidade de gentilmente declinar, dirigiu-se ao pai, que nos observava tranquilo, pedindo que ajudasse a encontrar o galho ideal para o efeito. O homem sorriu-se-me com as rugas de expressão e lá foi cumprir a requisição. As ovelhas e as cabras, misturadas sem distinção, iam balindo e berrando, sem beliscar o remanso flutuante. Voltou com a missão cumprida, dando ao filho a alegria de me oferecer o ramo de freixo, de faco, com um um inato talhe para a função de fisga. Agradeci, explicando que a usaria para lançar sementes de árvore. A vida é feita de escolhas, não é? Ambos anuíram, tanto surpreendidos como contentes.
(Fisga | Jehoel)
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